sábado, 14 de março de 2009

[Antes de ontem, tivemos direito a pre-party (como já era de esperar interrompida pela simpática presença da polícia holandesa), a party (electro-nice até o paard van troije fechar)e a pos-party (inesperada e sem muito sentido, na casa de um belga, com direito a parlapier surrealista até o sol aparecer para nos mandar pa cama).
Ontem fiquei-me só pela pre-party e por metade de um filme-propaganda-pró-neo-conservadorismo, na sessão da meia-noite, da belíssima sala de cinema que é o meu quarto. RESULTADO: Hoje tenho de estudar as relações EUA-URSS e a sua influência no processo de Integração Europeia. Belissimo!]

Há uma música que me faz lembrar os saguins. Acho que tem um bocadinho de nós todos e não me canso de a ouvir:



O vídeo não está completo... faltam perto de dois minutos... será isso uma metáfora romântica para a nossa cruel separação??? ehehe Viva o sentimentalismo, meus putos!!!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Pergunto-me até que ponto é importante celebrar datas. Se o sentimento está lá, de que serve o dia?
Mas é interessante pensar em nós há cinco anos atrás. Quanto mudou? Quantas expectativas ficaram por terra e quantas novas se criaram? Quantas vezes mudámos nós de campo, alterámo-nos, experienciámos outras formas de olhar para aquilo que alguns chamam vida? Sinto-me a correr à noite, com todo o medo e todo o fascínio que isso implica. As luzes viajam na direcção oposta à minha, subo a colina, olho para trás e vejo a mancha negra da foz. Os barcos e a ponte são pequenos focos. Tenho o cheiro do vento, a pele eriçada pelo frio e pelos nervos, água na boca, desejo. Encontro-me mais próximo ou mais afastado de ti? E de mim?
O que significa este dia? Ele não marca nem o início nem o fim de coisa nenhuma... Talvez o tenhamos só para preencher uma necessidade humana: o reconhecimento. Hoje, ontem, amanhã. Tudo tem um nome e uma explicação. O mundo de hoje é apenas um catálogo. Não quero escolher a peça errada. Não quero simulacro vida, quero arte. Se te tenho ao pé de mim, não é só para consolo de mim mesmo. É para viver contigo e te ver mudar e cortar o cabelo.
É na ausência que se dá valor ao Fado. Palavra. Hoje acordei cedo com o técnico de campainhas a bater-me à porta, olhei para o dia, estava sol outra vez! Pus o meu equipamento e fui à procura de um parque novo. Quando ouvi o Fado, vieram-me duas lágrimas aos olhos. Assumi que era do vento.
Na vida não há experiência, há vida. Não quero continuar a perpetuar a ideia de que é só para ver como é. Enquanto vejo, sou. Sou um cidadão da Haia. Apanhei o eléctrico 17 debaixo de um grau negativo, dirigi-me ao serviço de imigração da câmara e agora eles têm os meus registos. Burocraticamente, sou daqui. Mas percebo cada vez melhor o que é ser daí. Hei-de voltar, como os outros emigrantes, no "meu querido mês de Agosto". E nós? O que somos na ausência física e na pouca qualidade do teu microfone quando falamos no skype? A liberdade de estar longe faz-nos estar ainda mais próximos daquilo que nos prendia. A cultura, a amizade e o café. Hoje, com sol, sentei-me "na minha esplanada", bebi um café longo, abri o meu livro... fiz por construir o meu próprio cliché. Sozinho, contente por apreciar o momento. Mas, no fundo de mim, pensava em ti, na tua suave presença, nas perguntas que me farias e, de repente, o meu livro já não fazia sentido. Era a tua presença e o teu olhar de dúvida que eu queria. Por isso é bom estar longe e ter estes momentos. É bom não me esquecer, embora faça por me manter calado. É o meu momento de fuga. Um descanso.
Gosto de ti.

terça-feira, 10 de março de 2009

Amanhã é dia 11 de Março!

(vê lá se a data te diz alguma coisa!)

Hoje o dia foi péssimo! Só telefonemas e pequenos problemas, e soluções a encontrar.
Foi um dia chato e que me deixou chateada.

Depois fui correr. E foi libertador!
As pernas não queriam parar, e corriam com mais velocidade do que o costume. Efeitos ou da lua cheia, ou da chegada da Primavera às 7 Colinas, que faz as pessoas mais bonitas. (Desculpa meter-te inveja, mas hoje, às 8 da noite, corri de t-shirt.)

Há dois meses que não me sentia tão bem.

"boa noite, amigos, companheiros, camaradas
a vida é feita de pequenos nadas
a vida é feita de pequenos nadas
...
E o que é certo
é que os que têm quase tudo
devem tudo aos que têm muito pouco
mas fechem bem esses ouvidos
que o melhor ainda é ser mouco
isto diz paternalmente
quem acha que é ponto assente
que isto nunca vai mudar
e que o melhor é começar a apanhar
umas chapadas
a vida é feita de pequenos nadas "*
*Sérgio Godinho
Quarta-feira aprendi que os brasileiros pensam que strogonoff é uma comida típica do Brasil. Se é ou não, pouco importa, o jantar étnico estava uma pequena maravilha, a fazer lembrar as noites de Santos se substituíssemos a bela música do Vacas por samba, pauliteiros e danças gregas. (Comi 6 brigadeiros sem ficar com borbulhas no outro dia!)

Quinta-feira, como já é costume, a pre-party organizada no centro de Haia, por Erasmus de outra residência, acabou com a polícia à porta a dizer shhhh! É sempre divertido e é uma boa maneira de não corrermos o risco da pré-festa se alongar demasiado e depois não termos direito à festa em si! Fomos ao Paard (cavalo) van (de) Troje (Tróia) (o meu neerlandês está a fazer progressos) que, por sinal, é o melhor estabelecimento de diversão nocturna da "international city of peace and justice". Posso dizer que foi a melhor noite de Erasmus, com a melhor música e a melhor companhia. Como rebuçadinho passaram duas vezes A-punk dos Vampire Weekend que, por coincidência, ando a ouvir em repeat! Estado eléctrico. Apetece-me repetir mais uma vez a palavra "melhor".

Sábado fomos jantar fora a uma espécie de quasi-pronti versão asiática. A Hero disse que ia aparecer com mais uma rapariga e... fiz a minha primeira amiga sul-coreana! Acho que me apaixonei.... nicole, lily, joana, hero, panos e erikos, todos nós fotografados pela nossa sul-coreanarecordação luso-coreanaDomingo andei a aproveitar o sol, na praia, o céu azul e uns agradáveis 7-8 graus! Iniciei o meu estudo em cafés holandeses. O primeiro alvo foi certeiro: um macchiato a dois passos do palácio da rainha. Depois um chá de menta, ao final da tarde, nas esplanadas junto ao parlamento, com uma mexicana, um estudante de medicina belga, a Joana e, como não podia deixar de ser... dois gregos! O sol foi-se embora e começou a maior tempestade desde que cheguei à Holanda, cheguei a casa a pingar. A noite de segunda-feira ficou instituída como aquela em que eu e o Panos vamos sozinhos a Grote Markt para relaxar um pouco depois do primeiro dia de aulas! Como os outros preferem sempre ficar em casa, as esplanadas de segunda à noite estão meio vazias e é perfeito para ficar à conversa com um amigo... desta vez ninguém se sentou ao nosso lado.

Hoje tenho de trabalhar...

terça-feira, 3 de março de 2009

A carta devolvida

A semana passada chegou devolvida a carta que te enviei ainda tu não estavas sequer a pensar em começar a fazer a mala para Haia. Supostamente deveria chegar antes de ti, mas perdeu-se no caminho, e regressou às minhas mãos.

Deixo-a aqui escrita, para já agora tu leres (mesmo que já esteja fora do contexto):

«
Biblioteca de Algés,
(nem sei a que dia vamos, mas consulto o telemóvel, e...)
21 de Janeiro de 2009,
Quarta feira,
e falta menos de uma semana para ires para as Netherlands.

Não era da biblioteca de Algés de onde te queria escrever. Era antes de algum sítio típico de Lisboa, tipo Chapitô (que não é muito típico, mas é bonito), ou Miradouro de Santa Luzia, ou Senhora do Monte, ou de ontro sítio qualquer onde me imaginasses a escrever esta carta, e pudesses sentir o cheiro a Lisboa (em vez do cheiro da biblioteca de Algés).
Quando esta carta te encontrar (e espero que te encontre mesmo, que não chegue antes de ti e por isso venha de regresso às 7 colinas), já tu estarás nesse país que farás de conta que é teu durante os próximos 6 meses.
Nesta altura, imagino que te terás sentido nervoso toda a segunda, que te terás sentido nostálgico por deixares os churrascos do teu pai, as bolachas de chocolate que a tua mãe compra no Jumbo (ou no sábado ou no domingo, já que lá vais quer num dia quer no outro), o plasma do quarto da tua irmã, as discussões entre o teu primo e a tua avó (pois, pois!...).
De segunda para terça mal terás dormido: cá por mim rebolaste na cama durante horas, a pensar que não te podes esquecer de nenhum papel nem do bilhete de avião, a pensar no que irás lá encontrar, e que vais ter de ser tu a lavar as tuas meias e cuecas durante meses.
Na madrugada de terça terás a sensação, ao sair de casa rumo ao aeroporto, que deixaste alguma coisa para trás (aposto que não levaste a tua almofada com uma botija de água quente lá dentro, a que te ofereci pelo Natal!).
Imagino-te agora no avião: ele a subir, a subir, e tu a veres Lisboa cada vez mais pequenina, mais pequenina, mais pequenina, a dizeres adeus enquanto acenas.
E, umas horas depois, a veres haia cada vez maior, cada vez maior, cada vez maior, com um sorriso para lá de grande.
Aí só te esperam coisas boas: gente bonita à farta, cinema, teatro, exposições (mas tudo em holandês, o que é que julgas?!) diferentes todas as semanas, todos os dias, em vários espaços, lugares e becos. Discutirás em inglês o Obama, a globalização, o consumismo, o Ocidente e o Oriente, Portugal, a União Europeia, África, o comunismo, o facto de uma amiga tua ser comunista, o capitalismo, as crises do capitalismo, a ecologia, a reciclagem, o Mundo.
Discutirás em inglês com um holandês, um italiano, um sueco, uma dinamarquesa e a amiga finlandesa, com um japonês, uma muçulmana linda de véu e olhos pintados, um americano anti-América.
Discutirás com todos ao mesmo tempo e um de cada vez, em inglês, arriscando as três palavras em holandês que sabes, e arranhando o teu mau francês para mostrares que sabes falar francês.
Comprarás bolachas de chocolate, das mais baratas que houver (que são caras na mesma), comerás muita lasanha congelada e chegarás mais gordo a Lisboa.
Andarás muito de bicicleta. Conhecerás tudo de bicicleta. E se calhar não chegarás mais gordo a Lisboa.
Chegarás mais feliz.
Mais culto.
Chegarás mais velho, mais maturo.
Chegarás sabendo lavar as tuas meias e cuecas.
Mas sei que chegarás mais tu. Mais parecido contigo próprio.
Sei que encontrarás o que seja que andes à procura, aí nas Terras Planas.

Consigo ser egoísta o suficiente para te dizer que te foste embora na pior altura.
Disseste-me que era bom estar sozinha e não me disseste como se fazia.
Agora que te sentes culpado, digo-te: se calhar é melhor assim. "Olha, Ana, agora estás mesmo por tua conta. Não terás de lavar a tua roupa interior durante 6 meses, mas não tens muletas, elas embarcaram num vôo da Easyjet por 100 euros para o Norte da Europa - agora vira-te!"
E vou virar-me, ora pois!
Assim, cá fica por escrito a intenção de, nos próximos meses, ser presença assídua dos teatros, cinemas e salas de espetáculos desta capital!

è bom ter-te na minha vida.

Entretanto, chega a hora das recomendações:
-Não te percas demasiado
- não te esqueças da carteira não sei aonde
- actualiza o blog
- manda cartas, que eu nunca recebo cartas pelo correio
- come fruta e bebe leite
-modera o alcóol e o tabaco
- fuma português suave
-estuda alguma coisa

Boa sorte.
Um beijo grande, com barulho, e um abraço apertado,
Ana

ps: daqui a uns meses convida-me para ir aí, ok?

»

Bem, aqui está ela.
Acabámos de fazer as nossas leituras e fui com o Panos a Grote Markt. É segunda-feira, não estava muita gente. Sentámo-nos na esplanada por causa dos cigarros. Os 6 graus fizeram com que não tivéssemos companhia lá fora (por algum tempo). As conversas com o Panos vão sempre parar em politiquices, anarquistas, revoluções atenienses, modos de estar e de ser no sul da Europa. Percebo que temos muitas coisas em comum, mas também, diferenças abissais e tento explicar-lhe, sem muito sucesso, o que é fazer parte de um povo de brandos costumes. Temos o Atlântico e é isso que nos faz ser assim. A Walkiria disse-me que comprou, em Bruxelas, um postal que explicava o que é ser europeu através de cartoons... e o português era um homem a olhar para o mar com se lhe estivesse a fazer continência. Somos assim. E isso faz-me ter sentimentos demasiado contraditórios em relação ao meu país. A nossa espera eterna seduz-me de morte: encontro nela um romantismo tão único, tão nosso, tanta canela e pôr-do-sol de mãos dadas a lavrar a terra... Mas depois esse romantismo confunde-se facilmente com perguicites, tretas e a mais enfadonha das banalidades. Precisávamos tanto de um outro abanão... desta vez, um que não fosse físico. Mas não estou disposto a começá-lo. Pelo menos por agora. Não sei onde me situo em relação a mim mesmo, à minha mãe-pátria... Mas percebo cada vez mais que sou daí. Também prefiro ir à procura do que encontrar. Ter é uma enorme chatice... mas viajar (ai, viajar!) é ter o nosso verdadeiro sangue. É ter toda a aventura e bel-prazer sem qualquer espécie de comprometimento, a não ser o comprometimento com a própria viagem. A nossa bravura embrulha uma cobardia que não se consegue esconder. Irrita-me reconhecer em mim tantas características do meu povo. Mas, ao mesmo tempo, conforta-me.
Estávamos a falar sobre teatro e a vinda do David a Haia, a meio de Abril, quando um rapaz de óculos, cabelo loiro pelos ombros, casaco de malha, nos pergunta se se pode sentar na nossa mesa. Olhámos em volta, estavam todas as outras vazias. Mas OK, tudo bem. Ele ficou ao lado do Panos e a mulher que vinha com ele, ao meu lado. No mínimo estranho... Continuámos a nossa conversa, embora um pouco constrangidos por aquela presença tão próxima. Falavam em inglês um com o outro. Como é óbvio tentei perceber qual era o assunto deles, mas era impossível continuar a seguir o que o Panos dizia e ouvir a conversa alheia, ao mesmo tempo.
Ao fim de cinco minutos, aquele despropósito tornou-se insustentável. E o rapaz, com uma enorme naturalidade, pergunta-nos sobre o que estávamos a falar. Ela: 'vá, de um a seis, como avaliam a vossa conversa?' ( -O Quê?)
Acontece todos os dias falarmos com estranhos... mas nunca assim. Repito: todas as outras mesas da esplanada estavam vazias e, de repente, tínhamos uma linda mulher a pedir-nos para avaliar-mos a nossa conversa numa escala de 1 a 6.
Ela tinha uns olhos perfeitamente verdes. E o cabelo escuro. Devia estar nos seus trintas, ele '10 anos mais novo, mas 10 vezes mais sábio'. A conversa que estava a ter com o Panos transforma-se, então, em duas conversas. Eu e ela, a Nicola, e ele e o rapaz, o norueguês. Ela era irlandesa e trabalhava no 'Tribunal Criminal' e ele estudava música no conservatório. Da situação no Terceiro Mundo, ao nosso cinismo de esplanada, terminando com algumas considerações sobre sadomasoquismo, senti que ela mudava de assunto em cada frase. Ele desistiu de falar pouco tempo depois de ter começado. Por azar (ou por sorte) o bar não tardou em fechar. Voltámos a Asstraat de bicicleta, a rir-nos à parva e a perguntar: quem eram aquelas pessoas?

domingo, 1 de março de 2009

Obviamente que é domingo.

Volta a chover do lado de cá da ponte.

(obrigada por teres trocado notícias de Paris por desabafos lamechas)